terça-feira, 22 de abril de 2014

VLADIMIR SAFATLE: Como não pagar IPVA (helicópteros, iates e jatos)


Todos os anos você precisa pagar o IPVA do seu carro. Como o nome diz, trata-se de um Imposto de Propriedade sobre Veículos Automotores. Bem, um veículo automotor é, pasmem vocês, "aquele dotado de motor próprio".
Por exemplo, um carro de boi não pagará IPVA por não ter motor próprio: o motor é o boi, a saber, uma entidade ontologicamente a parte do aparato técnico de motricidade desenvolvido pelo saber humano. A bicicleta não pagará o imposto pela mesma razão, assim como o helicóptero do banqueiro, o jato particular do escroque e o iate do Naji Nahas.
"Assim como o helicóptero, o jato particular e o iate"? Sim. Você poderá procurar todos os meandros do saber jurídico, encontrar explicações surreais, como aquela que afirma que o atual IPVA substituiu a antiga TRU (Taxa Rodoviária Única), logo os veículos automotores que pagarão impostos são apenas aqueles colados no chão.
No entanto, a verdade é uma só: helicópteros, jatos particulares e iates não pagam IPVA porque, no Brasil, os ricos definem as leis que protegerão seus rendimentos e desejos de ostentação. Bem-vindo àquilo que economistas como o francês Thomas Piketty chamam de "capitalismo patrimonial": um capitalismo construído para quem ganha mais continuar a ganhar mais, a não precisar devolver nada para a sociedade, enquanto quem ganha menos é continuamente espoliado e recebe cada vez menos serviços do Estado.
Se os 20 mil jatos particulares e os 2.000 helicópteros que voam livremente no Brasil pagassem IPVA, teríamos algo em torno de mais R$ 8 bilhões. Esse valor é o equivalente a, por exemplo, dois orçamentos da USP. Ou seja, se aqueles que têm mais capacidade de contribuição simplesmente pagassem para ter seu singelo helicóptero o mesmo que você paga para ter seu carro, poderíamos financiar mais duas universidades com 90 mil alunos estudando gratuitamente.
Esse é apenas um dentro vários exemplos de como o Brasil se organizou para ser um país onde ser rico é um ótimo negócio. Um país que, só em 2014, deverá ter mais 17 mil milionários e nenhum deles pagando aquilo que você paga. Porque, aqui, quanto mais você sobe (de preferência de jato ou helicóptero), mais você é protegido. Isso pode parecer uma explicação primária, mas muitas vezes o óbvio é o que há de mais difícil a enxergar.
Como disse, não um esquerdista de centro acadêmico, mas o megainvestidor norte-americano Warren Buffett: "Quem disse que não há luta de classe? Claro que há, e nós estamos vencendo". Folha, 22.04.2014

Thomas Piketty: a não ser que ajamos, a desigualdade global vai piorar

A não ser que ajamos, a desigualdade em nível global vai se tornar muito pior, vindo eventualmente a tornar as nossas instituições uma piada.


Jacob S. Hacker e Paul Pierson
Divulgação

Nos anos 1990, dois jovens economistas franceses, então ligados ao Massachusetts Institute of Technology (MIT), Thomas Piketty e Emmanuel Saez, começaram o primeiro esforço rigoroso para reunir dados sobre desigualdade nos países desenvolvimentos, ao longo de décadas. No estouro da crise, em 2007, questões fundamentais de economia que até então vinham sendo ignoradas chamaram a atenção. A pesquisa de Piketty e de Saez estava pronta, com dados que mostravam que as elites nos países desenvolvidos tinham, nos últimos anos, enriquecido muito mais do que a população em geral e do que a maioria dos economistas haviam suspeitado. Ao longo da década passada, de acordo com Piketty e Saez, a desigualdade tinha retornado a níveis próximos daqueles do início do século XX.

 No último outono, Piketty publicou sua obra magna, O Capital no Século XXI, na França. O livro busca modelar a história, as tendências recentes, e volta ao futuro do capitalismo no século XIX.The American Prospect perguntou a especialistas e acadêmicos que estudam a desigualdade para analisarem o argumento de Piketty e o impacto potencial dele sobre as políticas dos Estados Unidos.

Jacob S. Hacker, diretor do Institution for Social and Policy Studies e Stanley B. Resor, professor de Ciência Política na Universidade Yale, Paul Pierson, o Professor de Ciência Política da cadeira John Gross, na Universidade da Califórnia, em Berkeley, são os co-autores, mais recentemente, do “Winner-Take-All Politics: How Washignton Made the Rich Richer and Turned Its Back on the Middle Class” [algo como: “O vencedor sempre ganha, na Política: como Washington tornou os ricos mais ricos e deu as costas para a classe média”]. Heather Boushey é diretora executiva e economista chefe no Washington Center for Equitable Growth. Branko Milanovic é professor visitante no Graduate Center, da Universidade da Cidade de Nova York, um pesquisador sênior do Luxembourg Income Study Center, e o autor de The Haves and the Have-Nots: A Brief and Idiosyncratic History of Global Inequality [algo como: Os que têm e os que não têm: uma breve e idiossincrática história da desigualdade global].
Um Tocqueville para hoje

Jacob S. Hacker e Paul Pierson
Quando Alexis de Tocqueville visitou a América no começo dos anos 1830, o aspecto da nova república que mais o entusiasmou foi a sua notável igualdade social. “A América, então, exibia no seu estado social um extraordinário fenômeno”, disse Tocqueville, maravilhado. “Lá os homens parecem ter muito mais igualdade no que respeita às condições materiais e intelectuais... do que em qualquer outro país do mundo, ou em qualquer outra época de que se tenha memória”.

Para Tocqueville, que ignorava quase completamente a exceção sombria do Sul, o progresso americano em direção a uma maior igualdade era inevitável, a expansão de seu espírito democrático, imbatível. A Europa, acreditava ele, em breve seguiria a liderança da América. Ele estava certo – de certa forma. A democracia ascendia, mas a desigualdade, também. Somente com a Grande Depressão do Século XX, com duas terríveis guerras e com a criação de um estado moderno de Bem Estar Social a concentração de riqueza nas democracias ricas começou a se dissipar e os frutos do rápido crescimento começaram a implicar ganhos generosos para os trabalhadores comuns.
Agora, um outro francês, com uma visão panorâmica – e evidências muito mais precisas – quer nos fazer pensar de nova maneira a respeito do progresso da igualdade e da democracia. Embora herdeiro da tradição analítica da história, de Tocqueville, Thomas Piketty tem uma mensagem que não poderia ser mais diferente: a não ser que ajamos, a desigualdade vai se tornar muito pior, vindo eventualmente a tornar as nossas instituições uma piada. Com a riqueza cada vez mais concentrada, os países competindo para concederem mais isenção fiscal ao capital e à herança vindoura, para rivalizar com o empreendendorismo, como fonte de ricos, uma nova elite patrimonial pode se provar tão inevitável como Tocqueville certa feita acreditou a igualdade democrática era.
Essa previsão está baseada, não na especulação, mas em fatos reunidos através de pesquisa prodigiosa. Os números espantosos de Piketty mostram que a distribuição da renda nacional oriunda do capital – que já se acreditou ser estável – está em ascensão. A riqueza privada alcançou novas altas relativas à renda nacional e está se aproximando de níveis de concentração que não se tinha desde antes de 1929.

O movimento intelectual poderoso de Piketty consiste em situar o tema da desigualdade econômica da América num contexto histórico mais amplo e transnacional. As forças responsáveis por nosso igualitarismo passado, lembra-nos Piketty, foram o rápido crescimento – tanto o populacional, como da economia como um todo. A França nunca teve o primeiro, que é a razão por que o país teve uma verdadeira classe “rentista” de proprietários aristocratas no começo do Século XX, quando os EUA ainda era uma terra de pequenos proprietários e de novos ricos. Ainda assim, o crescimento econômico segue como o grande fator: quando a economia se expande modestamente, ano a ano, o retorno em capital excede geralmente o crescimento da renda do trabalho, e as fortunas dos já ricos cresce, ao passo que o resto da sociedade decresce.
Desde o ressurgimento da desigualdade de renda, observadores preocupados vêm se concedendo conforto com a noção de que os donos da riqueza – ainda mais desigualmente distribuída que a renda – não estão se formando tão rapidamente com a renda ela mesma. Se olharmos para frente, no entanto, essa noção reconfortante parece suspeita. Algumas das maiores fortunas constituídas na nova era de ouro financiará a filantropia ou a frivolidade. A maior parte, no entanto, será afunilada de volta, em investimentos de capital ou repassada para herdeiros.
 
Piketty observa que os retornos desses investimentos são invariavelmente maiores para aqueles com maior riqueza – o efeito Matthew (*) é uma outra força de aumento da concentração. Enquanto isso, as heranças estão voltando como uma fonte maior de vantagem para os já avantajados. Enquanto a desigualdade de renda desce até uma pirâmide demográfica que se estreita, podemos esperar que as heranças se tornem uma fonte crescentemente importante de herança de privilégios.
Piketty é acertadamente pessimista quanto a uma resposta imediata. A influência da riqueza na política democrática e em como pensamos a respeito de mérito e recompensas oferece obstáculos formidáveis. Fortalecer a competição internacional para os ricos e os seus dólares leva Piketty a acreditar que, sem um contra-movimento sério, a taxação de capital tenderá a zero. A desigualdade está se tornando um problema tão  “terrível” como a mudança climática – em que a solução deve não apenas superar poderosos interesses entrincheirados em países individuais, como ser global, para ser efetiva.
No entanto, é a taxação do capital e, em última análise, a taxação de capital global, que Piketty vê como solução eventual. Taxar apenas o consumo e a renda do trabalho viola a noção de que indivíduos deveriam financiar a riqueza comum com base em sua capacidade de pagar. Uma taxa global de capital – modesta, progressiva, baseada na transparência – poderia reforçar o conflito entre capacidade econômica e contribuição individual para atividades coletivas. Mais ainda, processo hesitante nessa direção já vem ganhando espaço, na medida em que países ricos visam a – sem grande sucesso, até agora – acabar com os paraísos fiscais e com a engenharia financeira das corporações que cada vez mais tornam a taxação voluntária para os super ricos. Porque a riqueza está ainda tão concentrada nas nações de industrialização avançada, acordos que abarquem cidadãos e transações no interior da Europa e da América do Norte ainda terão um longo caminho pela frente, até que essas atividades sejam trazidas às claras. Uma taxa modesta sobre as grandes fortunas também pode encorajar usos mais produtivos de capital, taxando gradualmente grande patrimônio com pouco retorno.
Piketty sugere que pressões por mudanças eventualmente provar-se-ão convincentes. Ou os capitalistas mais ricos vão se desagregar na competição pela diminuição dos custos, ou o resto da sociedade vai se levantar e impor um quadro mais justo. Para um livro que insiste no primado da política, no entanto, Piketty tem relativamente pouco a dizer a respeito de como – com as organizações ligadas ao mundo do trabalho enfraquecidas, com os interesses da finança fortalecidos, e com as forças anti-governo incentivadas – o tipo de movimento político necessário para a emergência de um futuro mais justo. (Foi afinal a guerra, não o sufrágio universal, que em última análise subjugou a desigualdade no século XX). Ainda assim, talvez com esse livro magistral, as realidades problemáticas que Piketty desenterra tornar-se-ão mais visíveis e as racionalizações do privilégio que as sustentam se tornem menos dominantes. Assim como Tocqueville, Piketty nos deu uma imagem de nós mesmos. Desta feita, uma a que deveríamos resistir, não dar boas vindas
(*) Efeito Mathew: “diz respeito ao fato de que a contribuição de certos cientistas é valorizada mais do que o devido. Este termo foi criado por Robert Merton para descrever como cientistas eminentes quase sempre levam mais crédito que um pesquisador desconhecido, mesmo se o trabalho for similar. Exemplo: John von Neumann é considerado o pai do computador, mas sua contribuição é residual.
Um corolário é o Efeito Matilda que afirma que o trabalho de uma mulher em ciência quase sempre é ignorado”. In: http://www.contabilidade-financeira.com/2008/08/efeito-matthew-e-matilda-em-cincias.html (N.deT).
Tradução: Louise Antônia León 
(*) Publicado originalmente na The American Prospect
Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Thomas-Piketty-a-nao-ser-que-ajamos-a-desigualdade-global-vai-piorar/4/30502

GUSTAVO PATU: A disputa de 2015 (Ortodoxos X Heterodoxos)


BRASÍLIA - Economistas ortodoxos dizem que o progresso vem do esforço e do sacrifício, de produzir e de poupar mais. Economistas heterodoxos acham que o poder político tem papel fundamental, assim como a sorte e o azar.
Ortodoxos são mais coerentes e disciplinados, mas costumam insistir em excesso numa doutrina capenga e pouco adequada à prática do cotidiano, principalmente para os padrões tropicais. Heterodoxos são mais criativos ou, pelo menos, mais espirituosos em sua saudável irreverência. Entretanto, na ausência de uma teoria sólida, suas escolhas tendem a se limitar ao que é mais cômodo de imediato.
Os ortodoxos passaram vergonha na crise global porque, embriagados com os lucros financeiros, esqueceram que a euforia nunca é duradoura no capitalismo. Os heterodoxos estão em baixa no Brasil porque, nos últimos anos de empáfia intervencionista, não conseguiram obter mais que uma mediocridade duradoura.
A ortodoxia prega ajustes e reformas, em especial nos inícios de governo, quando se pode arcar com o peso de medidas impopulares cujos efeitos positivos levarão tempo para se tornarem visíveis. Dilma Rousseff, heterodoxa, deixou a ideia de lado quando percebeu que o país já não ia bem das pernas.
Ortodoxos calculam que as empresas investirão mais se as leis fizerem sentido, se os impostos forem justos e se o futuro for previsível. Heterodoxos argumentam que as empresas se animarão a produzir se a população dispuser de renda para consumir.
Para os ortodoxos, será preciso abandonar a partir do próximo ano a política de valorização do salário mínimo, para conter a escalada dos gastos públicos e da inflação. O heterodoxo Guido Mantega diz que essa não é uma decisão para agora.
O pensamento ortodoxo é escondido nas eleições, até por seus adeptos. Depois, ele pode ser abraçado até pelos adversários heterodoxos.gustavo.patu@grupofolha.com.br
Folha, 22.04.2014.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Revista The Economist diz que brasileiro é 'improdutivo'

A reportagem diz que uma série de fatores explicam a fraca produtividade brasileira
Publicação: 17/04/2014 11:37 Atualização: 17/04/2014 11:42 (Jornal Estado de Minas)

A última edição da revista The Economist traz uma reportagem bastante crítica ao mercado de trabalho no Brasil e em especial à produtividade dos trabalhadores. Com o título "Soneca de 50 anos", a reportagem diz que os brasileiros "são gloriosamente improdutivos" e que "eles devem sair de seu estado de estupor" para ajudar a acelerar a economia.
A reportagem diz que após um breve período de aumento da produtividade vista entre 1960 e 1970, a produção por trabalhador estacionou ou até mesmo caiu ao longo dos últimos 50 anos. A paralisia da produtividade brasileira no período acontece em contraste com o cenário internacional, onde outros emergentes como Coreia do Sul, Chile e China apresentam firme tendência de melhora do indicador.

"A produtividade do trabalho foi responsável por 40% do crescimento do PIB do Brasil entre 1990 e 2012 em comparação com 91% na China e 67% na Índia, de acordo com pesquisa da consultoria McKinsey. O restante veio da expansão da força de trabalho, como resultado da demografia favorável, formalização e baixo desemprego", diz a revista.


A reportagem diz que uma série de fatores explicam a fraca produtividade brasileira. O baixo investimento em infraestrutura é uma das primeiras razões citadas por economistas. Além disso, apesar do aumento do gasto público com educação, os indicadores de qualidade dos alunos brasileiros não melhoraram. Um terceiro fator menos óbvio é a má gestão de parte das empresas brasileiras.

Há ainda a legislação trabalhista. A revista diz que muitas empresas preferem contratar amigos ou familiares menos qualificados para determinadas vagas para limitar o risco de roubos na empresa ou de serem processados na Justiça trabalhista. A revista também cita que a proteção do governo aos setores pouco produtivos ajuda na sobrevivência das empresas pouco eficientes.

A reportagem ouviu um empresário norte-americano que é dono do restaurante BOS BBQ no Itaim Bibi, em São Paulo. Blake Watkins diz que um trabalhador brasileiro de 18 anos tem habilidades de um norte-americano de 14 anos. "No momento em que você aterrissa no Brasil você começar a perder tempo", disse o dono do restaurante BOS BBQ, que se mudou há três anos para o País.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

ANTONIO DELFIM NETTO: Barulho


As pesquisas do Datafolha têm alta credibilidade. A última revelou que, na situação atual, de cada três cidadãos amostrados, dois esperam um aumento da taxa de inflação. Trata-se de informação que merece cuidado. Parece que o "barulho" feito em torno dela é um pouco exagerado.
Por definição, o Banco Central deveria trabalhar com a missão de manter a taxa de inflação em torno da "meta" estabelecida pelo governo, que é de 4,5% ao ano, com uma banda de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo (portanto, entre 2,5% e 6,5%) para acomodar flutuações de curto prazo advindas de emergências dificilmente previsíveis ou impossíveis de serem contornadas, como fenômenos meteorológicos adversos.
Qual é a situação atual? Os fatos são os seguintes: 1º) no período 2000-2013, a taxa de inflação média registrada foi de 6,5% (o limite superior da banda de tolerância). Não há desculpa para tal laxismo; 2º) a taxa de inflação acumulada nos últimos 12 meses, terminados em março de 2014, é de 6,15%; a dos serviços, de 9,1%; a da alimentação, de 7,1%, além dos preços reprimidos; 3º) estamos num daqueles eventos imprevisíveis e incontornáveis, no momento em que há pouco espaço livre na banda de tolerância: uma seca de proporções catastróficas afeta os preços agrícolas e põe em dúvida o suprimento de água e o custo da energia hidráulica. Não é, portanto, sem razão que a sociedade manifesta sua preocupação, uma vez que a probabilidade de a taxa de inflação superar o limite de tolerância superior da banda é muito alta.
É preciso, entretanto, relativizá-la: 1º) porque a pressão sobre os preços de alimentos tende a acomodar-se naturalmente dentro do ano; 2º) porque, como o Banco Central afirmou na sua ata da reunião do Copom, realizada nos dias 1º e 2 de abril, num longo parágrafo (32), já aumentamos a taxa de juro básica em 375 pontos desde abril de 2013, e seus efeitos "têm se propagado normalmente por intermédio dos principais canais de transmissão e assim tendem a continuar nos próximos trimestres"; 3º) porque o aumento do preço da energia (elétrica e petróleo) vai sendo adiado e não terá efeito em 2014; e 4º) porque, como disse o presidente do BC, Alexandre Tombini, "não há metas intermediárias dentro do ano-calendário. Vamos manter a inflação dentro de nossa banda, pois nosso sistema é estabelecido para atingir o objetivo no fim do ano".
Diante dessas condições, é muito provável que a taxa de inflação de 2014 fique abaixo do limite superior da banda de tolerância. É claro, entretanto, que devemos ajustar a política econômica (fiscal, monetária e cambial) para fazê-la retornar, num prazo razoável, à meta de 4,5%.
Folha, 15.04.2014.

terça-feira, 15 de abril de 2014

"Classe média frágil" vira maioria da população global: Crescimento mundial elevou a 40% a fatia dos que estão na fronteira da classe média, mas cresce o risco de que eles voltem a cair

DO "FINANCIAL TIMES"
A fatia de pessoas agrupadas na estreita faixa logo acima da linha da pobreza cresceu exponencialmente nos últimos 30 anos e se tornou a maior do planeta, mostra análise feita a partir de dados do Banco Mundial, sobre 122 países em desenvolvimento.
São pelo menos 3 bilhões de pessoas que hoje sobrevivem com entre US$ 2 e US$ 10 ao dia, o equivalente a 40% da população da Terra.
Em 1981, a fatia era de 20% das pessoas --930 milhões.
"A humanidade é composta por mais pessoas desse grupo do que de qualquer outro", diz Homi Kharas, economista da organização de pesquisa Brookings Institution e um dos maiores especialistas mundiais na ascensão da classe média em mercados emergentes.
Colocado no contexto mundial, o número de pessoas que se tornaram parte da classe média sólida continua pequeno, enquanto o da média frágil teve sua alta acelerada.
Em 2010, o ano mais recente sobre o qual existem dados disponíveis, havia nos países em desenvolvimento 2,4 bilhões de pessoas vivendo com menos de US$ 2 ao dia e apenas 662 milhões delas com renda diária superior a US$ 10 ao dia, de acordo com a análise do "Financial Times".
FIM DO CRESCIMENTO
A fragilidade desse grupo fica ainda mais grave porque o grande surto de crescimento dos mercados emergentes nos últimos 30 anos parece estar chegando ao fim.
Em estudo apresentado neste mês, economistas do Banco Mundial afirmavam que "o crescimento dos países em desenvolvimento pode ficar entre 2% e 2,5% mais baixo do que vinha sendo no período anterior à crise".
De acordo com Kaushik Basu, economista-chefe do Banco Mundial, mesmo que os países em desenvolvimento continuassem a apresentar o crescimento acima da norma dos últimos 20 anos, seria improvável que o banco realizasse seu objetivo de eliminar a pobreza extrema do planeta até 2030.
Mais preocupante é a possibilidade de que um período prolongado de crescimento lento venha a erodir os ganhos das últimas décadas. Até que ponto as pessoas que saíram da pobreza estariam vulneráveis a cair de volta?
"Essa é uma questão muito boa", diz Basu. "E em minha opinião elas ainda estão muito vulneráveis."
BRASIL
Alguns economistas especialistas em desenvolvimento argumentam que a melhora nas redes de seguridade social em países como o Brasil garantem que as pessoas que saíram da pobreza têm menos probabilidade de retornar a ela. Mas essas redes de proteção têm muitos buracos.
No Brasil, onde a economia passa por um período de crescimento lento e alta na inflação, a média frágil está cada vez mais inquieta, como mostram os tumultos de 2013.
Os líderes da China enfrentam uma ameaça existencial: precisam manter a média frágil do país satisfeita ao mesmo tempo em que reequilibram sua economia.
Recentes anúncios das autoridades de Pequim tiveram por foco a habitação por preço acessível, concessão de maior número de licenças de moradia e uma melhor infraestrutura de transporte.
Basu está cauteloso diante dos riscos que poderiam reverter anos de progresso: a desaceleração na economia chinesa, novas tecnologias como robôs e impressoras 3D e um mundo no qual os salários representam parcela menor do PIB. O mundo está em um ponto de inflexão, ele diz. "Mas é um momento muito estranho, porque os grandes desafios subjacentes não são os desafios mais visíveis."

quarta-feira, 9 de abril de 2014

ALEXANDRE SCHWARTSMAN: A gente não quer só comida


Fôssemos uma espécie acomodada, não teríamos saído das savanas para nos espalhar mundo afora
Tenho ouvido frequentemente a seguinte pergunta: "Por que se preocupar tanto com o crescimento se há pleno emprego?". Na mesma linha, apareceu nova afirmação: "Ninguém come PIB". Em comum, tratam de reduzir o peso atribuído ao crescimento econômico em troca de variáveis mais facilmente observáveis, como emprego ou o consumo de alimentos.
Como deve ser claro, exceto talvez por quem que tenha caído de paraquedas no meio do debate, trata-se de um caso clássico de uvas verdes. Os mesmos que hoje relativizam a importância do crescimento há pouco alardeavam a aceleração da economia no período 2003-2010, quando a expansão média se situou em torno de 4% ao ano, implicando aumento do PIB per capita da ordem de 2,8% anuais.
Independentemente disso, porém, é bom deixar claro por que a preocupação com crescimento é, sim, válida e por que vai bem além da questão do emprego e da comida. Não há dúvida de que tê-los é uma fonte de satisfação para todos nós, assim como o foi o fim da hiperinflação. O reconhecimento desta garantiu duas eleições a Fernando Henrique Cardoso, ambas com vitória em primeiro turno. Aquelas, por sua vez, traduziram-se em votações expressivas para Lula em 2006 e Dilma em 2010.
A verdade, porém, é que queremos sempre mais. Fôssemos uma espécie acomodada, não teríamos saído das savanas para nos espalhar mundo afora, e a história humana é, em boa parte, a crônica da luta incessante para melhorar as condições de vida. Isto dito, não escapa a ninguém a melhora extraordinária observada nos últimos 250 anos, quando a renda per capita mundial quase decuplicou, saindo de valores próximos a US$ 600 para algo como US$ 6.000.
Em contraste, estimativas sugerem que no ano zero a renda per capita equivalia a cerca de US$ 450, valor que permaneceu praticamente inalterado por mil anos, crescendo lentamente para os valores ao redor de US$ 600 observados no fim do século 18. As condições de vida que hoje observamos são reflexo direto da dramática aceleração do crescimento.
De volta ao Brasil, ao ritmo observado entre 2003 e 2010 nossa renda per capita dobraria a cada 25 anos; no ritmo registrado de 2011 a 2013 (ou 2014), contudo, seriam necessários 65 anos para obtermos o mesmo resultado. A equação do crescimento é, portanto, simples: queremos dobrar nosso padrão médio de vida para nossos filhos ou teremos que esperar até depois de nossos netos? A insatisfação que aos poucos transparece na sociedade brasileira sugere que a resposta não está na segunda alternativa.
Adicionalmente, tomando emprestada a saudável obsessão do meu coautor no livro "Complacência", Fabio Giambiagi, com temas previdenciários, há promessas (feitas à minha geração e a outras) que não poderão ser cumpridas sem crescimento mais vigoroso que o atual.
Não se trata de um problema para hoje, bem entendido, mas, considerando que o país já gasta com aposentadorias e pensões o equivalente ao que gastam países com uma proporção de idosos na população três vezes maior que a nossa, parece claro que, sem a aceleração da nossa taxa de crescimento sustentável, teremos um encontro marcado com um problema sério daqui a 15 ou 20 anos.
O argumento, portanto, de que crescimento é secundário para a satisfação numa economia em pleno emprego é apenas uma justificativa (ruim) para o fracasso da "nova matriz macroeconômica" que (lembram-se?) nos levaria aonde neoliberal algum jamais esteve.
Sem uma mudança dramática de ênfase na política econômica, que passe a privilegiar investimento sobre consumo, produtividade sobre favores governamentais e forças de mercado sobre as intervenções desastradas que marcam a atual administração, o crescimento não se acelerará.
E, mais cedo ou mais tarde, os apologistas de plantão aprenderão que a gente não quer só comida, mas diversão e arte e, principalmente, uma saída para qualquer parte (salve Titãs!).
Folha, 09.04.2014